Quem fala em espírito, fala mistérios. Como entender 1 Coríntios 14:2?

“Uma tradução do texto seria: “Pois quem fala em língua [como dom], deve falar apenas dos mistérios de Deus ao entendimento dos homens e isto pelo Espírito”.”

“Pois quem fala em outra língua não fala a homens, senão a Deus, visto que ninguém o entende, e em espírito fala mistérios” (1 Coríntios 14:2).

“A expressão ‘em espírito fala mistérios’ aparentemente apresenta apoio ao sentido estático do dom, contrariando o sentido de todo o capítulo (e Novo Testamento). Paulo está sempre exortando os erros do abuso do dom, mas aqui parece apoiá-lo. Vamos analisar o verso:

(a) A maioria das versões não deixa claro quem é o “espírito” que fala em mistérios: se é algum ser humano ou o Espírito Santo. Dentro do contexto da perícope, Paulo deixa evidente que os dons são do Espírito Santo. Contudo, a NVI e a NASB (versões bíblicas) traduzem por “em seu [do ser humano] espírito…”, mas este “seu” não consta no original.

(b) O uso da expressão “mistério” (misterion) em Paulo: o termo aparece 5 vezes em 1 Coríntios, nos versos 2:7; 4:1; 13:2; 14:2; 15:51, e outras 10 vezes em Colossenses e Efésios. O uso plural se dá somente 3 vezes (1 Coríntios 4:1; 13:2; 14:2). Para ele, o sentido de “mistério” é sempre algo uma vez oculto e que agora foi revelado por Deus.

(c) A ideia chave do verso (e do capítulo) é que os ouvintes deveriam receber os benefícios do dom de línguas. Assim, deveriam proclamar os “mistérios” uma vez ocultos, mas agora revelados, pelo Espírito Santo. O texto jamais tem a ideia de que falar em línguas é falar em espírito somente a Deus, como se esse fosse o propósito do dom. Para que então seria necessária a tradução ou interpretação? Para que seria algo audível, pois posso conversar com Deus em minha mente?

(d) A expressão “visto que ninguém o entende”, o “o”, pronome pessoal do caso oblíquo, não se encontra no original.

(e) O fato dos ouvintes não entenderem, não quer dizer que a fala é estática; existem outras razões para isto, tais como: problemas de audição, não ser nativo da língua, muitos estarem falando ao mesmo tempo, falar muito baixo, etc. Paulo diz: “vós, se, com a língua, não disserdes palavra [logos] compreensível [eusemos: claramente reconhecível], como se entenderá o que dizeis?” (v. 9). Aliás, se uma “língua” não pode ser inteligível, deixa de ser língua, pois isto pressupõe entendimento. Paulo resolve o problema da falta de compreensão exigindo a presença sempre de um intérprete, tradutor, que torne a fala compreensível (vs. 13, 27).

(f) A expressão “entende”, no original é akouo, que quer dizer “ouvir uma fala ou linguagem”. Assim, o problema não está no ouvido da pessoa, mas na capacidade de compreender o que está sendo dito, ou a língua falada, não necessariamente estática. A LXX (versão bíblica septuaginta) usa a mesma expressão para definir o problema da confusão de línguas em Babel (Gênesis 11:1-9).

(g) A expressão “outra” em “quem fala outra língua” também não aparece no original.

(h) Uma tradução do texto seria: “Pois quem fala em língua [como dom], deve falar apenas dos mistérios de Deus ao entendimento dos homens e isto pelo Espírito”. (Anotações de classe do Prof. Edilson Valiante).

Fonte: Biblia.com.br