Como devo considerar o meu problema: tristeza, síndrome depressiva ou transtorno depressivo?

“O objetivo deste artigo é contribuir para aumentar o conhecimento desta doença, começando pelo que parece ser o mais simples, mas que representa onde a confusão se inicia: serão discutidos os usos mais frequentes da palavra “depressão”.”

Por Letícia Maria Furlanetto1

Os transtornos depressivos são um problema de saúde pública, devido a sua alta prevalência, ao declínio na qualidade de vida e no funcionamento laborativo que acarretam (HAYS e cols., 1995).

Apesar disto, o que se nota é que há muita confusão na compreensão destes transtornos, a começar pela palavra “depressão”.

Mesmo no meio médico, este termo é frequentemente utilizado de maneira incorreta, demonstrando o desconhecimento das características clínicas da doença depressão. Isto gera problemas, pois, por um lado, pacientes com transtornos depressivos acabam não sendo detectados, e, por outro lado, pacientes com “tristeza” muitas vezes são expostos, desnecessariamente, a efeitos colaterais de medicações antidepressivas.

O objetivo deste artigo é contribuir para aumentar o conhecimento desta doença, começando pelo que parece ser o mais simples, mas que representa onde a confusão se inicia: serão discutidos os usos mais frequentes da palavra “depressão”.

Tristeza x síndrome depressiva x transtorno depressivo:

A palavra “depressão” é usada de três diferentes maneiras.

Na linguagem comum é usada para descrever um estado de tristeza que todas as pessoas experimentam quando perdem algo de importância. Assim, ficamos tristes, porque gostaríamos de viajar e não podemos, porque não temos dinheiro para comprar algo que gostamos, porque não houve aumento de salário, etc.

Em psiquiatria, a palavra “depressão” é usada para significar humor anormal, semelhante, embora diferente da tristeza, à infelicidade e ao sentimento de miséria na experiência do dia-a-dia. Como tal, o humor depressivo pode aparecer, tanto como um sintoma em qualquer transtorno mental, quanto como um sintoma de muitas doenças físicas e condições tóxicas. Este tipo de humor pode vir acompanhado de outros sintomas depressivos, passando a ser denominado “síndrome depressiva”.

O humor depressivo, que acompanha estas síndromes, apresenta uma qualidade que o diferencia da tristeza “normal”, que parece estar relacionada a uma inabilidade para experimentar prazer (anedonia) de qualquer forma e com qualquer experiência.

Assim, pacientes com o humor depressivo frequentemente se queixam de que não conseguem mais sentir prazer com as “coisas” que gostavam anteriormente, de que tudo parece “pesado”, “difícil”, “arrastado” e que o “tempo não passa”, além de referirem um terrível sentimento de insuficiência. Resumindo, trata-se de um estado de ânimo duradouro, ou seja, na maior parte do dia, durante vários dias, não reativo a estímulos prazerosos, que colore a percepção de mundo da pessoa, fazendo com que tudo “pareça cinza”.

Este tipo de humor, ao fazer parte de uma síndrome depressiva, por definição, pode ter causas diversas. Destas, podemos citar o uso de medicamentos depressogênicos, determinadas doenças físicas, e, principalmente, depressão enquanto doença, como veremos a seguir.

Finalmente, a palavra “depressão” é usada como o nome para estados ou transtornos clínicos (substituindo a antiga ”melancolia”), ou seja, uma entidade nosológica, uma doença, que consiste em um grupo de sintomas formando padrões reconhecíveis e, às vezes, mostrando um curso clínico, com recuperação maior ou menor entre os ataques agudos.

Trata-se dos transtornos depressivos, cujo diagnóstico é essencialmente clínico e se baseia na presença de sintomas psíquicos e somáticos, os quais, de acordo com sua intensidade e evolução, definirão a gravidade do quadro clínico e os subtipos de diagnósticos.

De acordo com a CID-10 (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE, 1993), “o indivíduo usualmente sofre de humor deprimido, perda de interesse e prazer e energia reduzida levando a uma fatigabilidade aumentada e atividade diminuída”, sendo estes os sintomas típicos.

Outros sintomas comuns são: concentração e atenção reduzidas, diminuição da auto-estima e autoconfiança, ideias de culpa e inutilidade, visões desoladas e pessimistas do futuro, ideias ou tentativas de suicídio e atos autolesivos, sono perturbado e apetite diminuído. Inúmeros outros sintomas podem estar presentes e compor o quadro clínico. A duração mínima dos sintomas para um diagnóstico confiável é de cerca de duas semanas.

Caso o indivíduo apresente mais de um episódio depressivo, de acordo com a CID-10, chamamos de Transtorno Depressivo Recorrente.

Cabe esclarecer, entretanto, que a Associação Psiquiátrica Americana elaborou uma classificação própria que apresenta no seu manual, o DSM-IV (APA, 1994).

Nesta Classificação, os quadros de doença depressiva mais graves, que preencherem determinados critérios e que tiverem mais de duas semanas de evolução, são enquadrados na categoria diagnóstica “Depressão Maior” e aqueles, com intensidade mais leve e com tempo de evolução igual ou maior a dois anos, na categoria “Distimia”.

Cumpre explicar, também, que tanto na CID-10, quanto no DSM-IV, consta uma outra entidade nosológica, denominada “Transtorno Bipolar” (trata-se da antiga Psicose Maníaco – Depressiva). Somente é dado este diagnóstico para aqueles indivíduos que tiverem apresentado, também, episódio de mania (caracterizados principalmente por humor eufórico).

CONCLUSÃO:

Como vimos, a palavra depressão pode ser usada com diversos significados, que variam desde a tristeza “normal” até entidades nosológicas muito graves, tais como os Transtornos Depressivos Maiores e os Transtornos Bipolares.

Existem diferenças qualitativas entre esses termos e esperamos que este artigo tenha ajudado a ressaltá-las.

Fonte: Biblia.com.br

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1 Professora Assistente de Psiquiatria do Departamento de Clínica Médica da Universidade Federal de Santa Catarina.

BIBLIOGRAFIA:

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION (APA): Diagnostic and statistical manual of mental disorders (DSM-IV), 4. ed., Washington, D.C.:APA, 1994.

HAYS, R. D.; WELLS, K. B.; SHERBOURNE, D. et al. Functioning and well-being outcomes of patients with depression compared with chronic general medical illnesses. Arch Gen Psychiatry, 52:11-19, 1995.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE – Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10: Descrições Clínicas e Diretrizes Diagnósticas, Porto Alegre:Artes Médicas, 1993.