A realidade do perdão para o adultério

“”Meu marido me traiu. Agora voltamos a viver juntos novamente. Só que não consigo acreditar nele. O que devo fazer?””

“Meu marido me traiu. Agora voltamos a viver juntos novamente. Só que não consigo acreditar nele. O que devo fazer?”

“O perdão é dolorosamente difícil e, muito tempo depois de você perdoar, a ferida continua na lembrança. … Por trás de cada ato de perdão jaz uma ferida de traição, e a dor de ser traído não se desvanece facilmente” (Philip Yancey, “Maravilhosa Graça”, Editora Vida, p.86 e 87, 2006).

É fácil um líder religioso falar de perdão em sua mensagem. Mas perdoar é mais difícil do que as palavras dizem. Na palavra “perdoar” tem a parte que diz “doar”. Você doa, de graça, algo a alguém que não merece. Ou você recebe o que não merece, o perdão, mesmo sendo culpado.

Claudia Bruscagin, professora da PUC-SP diz: “Perdoar não é a negação dos sentimentos de mágoa, ira e rancor. É reconhecer os sentimentos e então escolher não agir por eles.” (“Religiosidade e Psicoterapia”, Editora Roca, p. 60, 2008). Perdoar tem que ver com escolha. Mas e os sentimentos de dor? Escolher perdoar os elimina?

O tempo cura. Mas nessa cura pode haver, e em geral há, mudanças profundas no relacionamento entre as pessoas envolvidas. Uma pessoa traída, pode precisar de anos de restabelecimento emocional para se recompor da tragédia e voltar a viver com serenidade. É como você jogar uma pedra num lago sereno e formar múltiplas ondas. As ondas se formam, não porque o lago é malvado, mas porque ele responde à uma lei da Natureza. Um coração partido não se recompõe rapidinho com qualquer “band-aid” religioso ou não.

Immaculée Ilibagiza, sobrevivente do genocídio (mortandade por guerra entre tribos e raças diferentes) em Ruanda, África, viveu noventa dias com mais sete mulheres escondidas num banheiro pequeno para não serem trucidadas, perdoou os algozes que mataram seus pais e irmãos com facões e armas de fogo, sendo que um dos assassinos partiu o crânio de seu irmão que havia feito um Mestrado, dizendo, irônica e diabolicamente que queria ver o que havia no cérebro de uma pessoa com Mestrado. Ela disse: “É impossível prever quanto tempo levará um coração partido para se recompor.” (“Sobrevivi para Contar”, Editora Objetiva)

Um marido muito cristão e fiel à esposa que havia sido traído por ela, me contou que durante uns dois anos não conseguia nem pensar no nome dela ao orar. Era muita dor, tristeza, decepção e raiva. Havia chorado muito em solidão. Emagrecera como sinal da dor na alma. Cientistas especialistas em estresse afirmam que a infidelidade conjugal é o número dois numa escala que mostra o que produz mais estresse emocional em humanos. O número um é a morte do cônjuge que se ama.

Este homem, rendendo-se à graça e podendo respirar depois de tanta dor que oprimia o espírito, começou a pensar em orar pela esposa. Passaram-se mais alguns meses e ele começou a tocar no nome dela com Deus em suas preces. Mais meses adiante, foi levado pelas ondas da graça a desejar o bem dela. Já podia pensar nisto, após uma anestesia afetiva.

Isto mostra que há um “timing”, ou tempo necessário, para cada pessoa viver o processo do perdão após uma ofensa. Quanto mais devastadora foi a ofensa e quanto mais importante significado emocional havia no relacionamento entre a pessoa e o ofensor, maior a ferida e maior o tempo necessário para sua cura. Cada um tem um ritmo de cura.

Cura não significa que após o perdão tem que haver reconciliação. Alguns casos não há, porque o ofensor foi longe demais ou porque ele não se interessa pela humilhação necessária para tratar a ferida ou porque a ferida destruiu a sustentação do relacionamento semelhante a um prédio abalado por um tremor que tem sua estrutura condenada pela Defesa Civil para a segurança de todos. Deus teve que destruir os antediluvianos porque eles não aceitaram o perdão e chegaram a um ponto de não-volta, de não-arrependimento, de não-perdão. Eles queriam prazer, mas não perdão, porque ficaram movidos pelas emoções, dominados pelos demônios da vaidade, da carnalidade, da mundanidade.

 Nem todo ofensor quer cura do seu câncer emocional pessoal, mas egocentricamente pode querer cura do relacionamento. Perdoar não é desculpar os erros da pessoa. Também não é esquecer. Você pode lembrar, mas escolhe não mais se concentrar nisto. A desculpa existe quando se comprova que o ofensor é inocente. Mas para o ofensor real, a culpa é real. E ela tem um preço assim como o perdão. (…)

Perdoar é um ato de fé. “Perdoando outra pessoa, estou confiando que Deus é um juiz melhor do que eu. Perdoando, abandono meus próprios direitos de me vingar e deixo toda a questão da justiça nas mãos divinas. Deixo nas mãos de Deus a balança que deve pesar a justiça e a misericórdia.” (Philip Yancey, “Maravilhosa Graça”, Editora Vida, p. 95, 96, 2008).

O perdão não é de graça. Quem perdoa tem que pagar o preço de abandonar seu desejo de fazer justiça com suas próprias mãos. É isto fácil? De jeito nenhum! Envolve grande risco porque o ofensor pode não demonstrar arrependimento e permanecer abusivo. Ou se interromper o ciclo de abusos, pode não admitir para o ofendido seus erros. Como conviver com uma realidade em que o ofensor não admite seus erros, não pede perdão, não quer tocar no assunto, quer viver como se tudo estivesse legal e como se não tivesse ocorrido um trauma muito doloroso?

Claudia Bruscagin, Ph.D. da PUC-SP, diz que num caso de traição conjugal, se o cônjuge que traiu desejar dar passos para uma reconciliação, ele precisa: (1) Aceitar a responsabilidade pelo ocorrido; (2) expressar sincero pesar e arrependimento; (3) oferecer alguma recompensa de alguma forma; (4) prometer não repetir o mesmo erro, e (5) pedir perdão. (“Religiosidade e Psicoterapia”, Editora Roca, p. 61, 2008). Eu acrescento: não só prometer não repetir mais o mesmo erro, mas NÃO repetir mesmo! Verdadeiro arrependimento é mais do que pesar pelo erro cometido. É um decidido afastamento dele.

Miguel Ángel Núñez, Ph.D., diz que o perdão é menos difícil quando os agressores se arrependem de verdade e fazem tudo para redimir os atos de violência e agressões. Quando não há isto, só um milagre da graça pode mudar a situação. Só quem vive uma situação como vítima de abuso, traição, violência é que sabe que dor é esta. “É fácil falar quando não se está vivendo a dor de ser agredido por alguém que diz que nos ama.” (“Violência e Perdão”, p.32, Sinais dos Tempos, da série “Quebrando o Silêncio”).

Não se deve coagir uma pessoa para perdoar. Isto é algo pessoal. É uma decisão pessoal. É resultado de um processo. Há um preço. Não é de graça. Após uma ofensa a pessoa precisa de um tempo para se recompor. O perdão tem que ser algo espontâneo. Você pode perdoar genuinamente e não querer reconciliação com o ofensor. É um direito seu.

Abusadores podem querer reconciliação sem assumirem as responsabilidades pelos erros. Isto é injusto e não cabe no perdão. Estas pessoas ficam fissuradas com medo de perder (o que já perderam na verdade) e querem que a vítima reata o relacionamento rapidinho como se tudo fosse uma questão de minutos e de um pequeno curativo, quando há sangramento na ferida. O preço neste caso é pago pelo tolerar a solidão e o afastamento devido aos erros cometidos. Um deserto ensina muito para as pessoas abertas para aprender ao atravessá-lo.

Dr. Núñez também explica que há uma diferença entre arrependimento e remorso. “Remorso é medo das represálias ou consequências legais pela ação realizada. Em vez disso, quem se arrepende vive de outra maneira.” (idem). Ou seja, muda.

O perdão não é de graça porque ele não livra a pessoa dos resultados de seus atos. O povo de Israel foi perdoado, porém, de cerca de dois milhões de pessoas que andaram pelo deserto após saírem do Egito, somente duas entraram na Terra Prometida. Havia um preço. “Aquele que maltrata outra pessoa física, sexual ou psicologicamente, tem que assumir as consequências de seu ato; caso contrário, o perdão não terá sentido nem significado. Perdoar não é passar por alto as consequências das agressões. Isto é injustiça. O perdão bíblico é sempre um ato realizado num contexto de justiça. Em nenhuma parte é um ato isento de responsabilidade. Seria confundir perdão com impunidade, e não é isso o que a Bíblia apresenta. …Não se pode viver num contexto de rancor. Mas é importante entender que o perdão tem seu tempo de desenvolvimento, é pessoal e, em muitos casos, um milagre.” (Miguel Ángel Núñez, idem).] ¹

Fonte: Biblia.com.br

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¹ Fonte: Portal Natural – O Perdão não é de Graça